sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Não me deixes!

Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava...
"Ai, não me deixes, não!

Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão,
Límpido ou turvo, te amarei constante
Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dzer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a for, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscavainda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

Gonçalves Dias

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